Multimodalidade, afinal, o que é?

sexta-feira, 30 de maio de 2014
Consoante Dionísio (2005; 2011), nos últimos anos, as discussões concernentes à Multimodalidade propagaram-se consideravelmente. Uma gama de pesquisadores advindos de uma vasta quantidade de campos de estudo – Análise do Discurso, Análise Crítica do Discurso, Análise do Discurso de Linha Francesa, Linguística Aplicada, Linguística de Texto, Pedagogia, Psicologia, Semiótica, Semiótica Social, Sociologia etc. - tem estudado esta temática, trazendo à tona as distintas maneiras como este conceito se materializa nas múltiplas formas da linguagem – escrita, oral e visual.
O conceito de Multimodalidade brota da Teoria da Semiótica, mais especificamente, da Semiótica Social. Consoante Barros (2005), a Semiótica concede prima pelo estudo do texto, mais especificamente, focando em explicar “o que o texto diz e como ele faz para dizer o que diz” (BARROS, 2005, p. 11). Em outras palavras, a Semiótica prima não só pelo estudo daquilo que é dito pelo texto, como também pelas estratégias textual-discursivas traçadas pelo autor do texto, a fim de exteriorizar o seu dizer. Diante disto, este campo de estudo se debruça sobre as mais distintas construções linguísticas do texto, para materializar seu dizer.
Quando falamos, aqui, em texto, adotamos a perspectiva trazida por Xavier (2006), que postula o texto enquanto uma prática comunicativa materializada, por intermédio das múltiplas modalidades da linguagem, tais como: verbal [escrita e oral] e não-verbal [visual]. O texto é, aqui, concebido como algo resultante da atuação das múltiplas formas da linguagem (LUNA, 2002). Isto é, o texto não é construído linguisticamente apenas, por meio da escrita. Pelo contrário, ele pode se materializar através da linguagem escrita, oral e/ ou imagética, bem como da articulação/ integração destas modalidades. Este mesmo texto que, agora, está sendo lido no suporte impresso e/ ou no suporte hipertextual poderia ser materializado mediante a oralidade. Com isto, ele deixaria de ser um texto? Não. Ele seria um texto materializado, por intermédio da oralidade, ou melhor, um texto construído através da linguagem oral. Mas, ainda assim seria um texto. Adotamos, então, o conceito trazido por Luna (2002, p. 1), “o texto é um evento comunicativo em que podem atuar várias linguagens (verbal, visual, etc.)”. Tal autora corrobora com a concepção de texto trazida por Xavier (2006).
Diante desta perspectiva, a Semiótica se debruça sobre todas as construções textuais, sejam elas traçadas através da linguagem escrita, oral e/ ou visual. A Semiótica vai, deste modo, estudar os ditos e os não-ditos do texto, abarcando, também, os recursos linguísticos articulados para a materialização do seu dizer. Neste contexto, emerge o conceito de Multimodalidade. No dizer de Dionísio (2005; 2011), a Multimodalidade refere-se às mais distintas formas e modos de representação utilizados na construção linguística de uma dada mensagem, tais como: palavras, imagens cores, formatos, marcas/ traços tipográficos, disposição da grafia, gestos, padrões de entonação, olhares etc. (DIONÍSIO, 2005; 2011; SILVINO, 2012). A Multimodalidade abrange, portanto, a escrita, a fala e a imagem. Mas, o que isto traz de inovador para as práticas comunicativas? Vamos responder essa indagação, por meio da exemplificação de alguns recursos linguísticos traçados na construção deste texto.
Neste texto, por exemplo, fazemos uso de marcas multimodais. Por diversas vezes, durante o decorrer do texto, mais especificamente, nas partes em que gostaríamos de dar um destaque e/ ou ênfase, recorremos aos recursos negrito e sublinhado. Poderíamos, também, fazer uso do aumento da fonte, da alteração da sua cor e/ ou outros efeitos do texto, tais como: o estilo do sublinhado, sombra, reflexo, pano de fundo etc.. Enfim, todos estes traços, na ótica de Dionísio (2005; 2011), podem ser alçados à condição de pistas textuais, que demonstram a intenção comunicativa e/ ou finalidade do texto. E, como tal, consistem em recursos linguísticos multimodais.
Neste sentido, no ato da construção de um dado texto – seja ele escrito, oral e/ ou imagético -, o autor pode fazer uso de uma vasta quantidade de recursos linguísticos multimodais provenientes tanto do plano verbal, como do visual. Para Dionísio (2005; 2011), todos estes distintos modos de construir um texto acarretam modificações substanciais na forma como as pessoas elaboram sentido e significação, transcendendo, desta maneira, a primazia dada à palavra. A Multimodalidade propicia, então, o irromper de múltiplos e diversificados recursos de construção de sentido.
(*) Silvio Profirio da Silva, Graduando em Letras pela Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE.
E-mail: silvio_profirio@yahoo.com.br
Referências
BARROS, D. L. P. de. Teoria semiótica do texto. São Paulo: Ática, 2005.
DIONISIO, A. P. Gêneros Textuais e Multimodalidade. In: KARWOSKI, A. M. ; GAYDECZKA, B. ; BRITO, K. S. (Org.) . Gêneros textuais: reflexões e ensino. São Paulo: Parábola Editorial, 2011.
_____. Multimodalidade discursiva na atividade oral e escrita (atividades). In: MARCUSCHI, L. A.; DIONISIO, A. P. (Org.). Fala e Escrita. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.
LUNA, T. S. . A pluralidade de vozes em aulas e artigos científicos. Revista Ao Pé da Letra (UFPE), v. 4, 2002.
SILVINO, F. F.. Letramento Visual. In: Anais dos Seminários Teóricos Interdisciplinares do SEMIOTEC – I STIS, 2012.
XAVIER, A. C. Como se faz um texto: a construção da dissertação argumentativa. Catanduva: Rêspel, 2006.

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